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Arquivos para Setembro 5th, 2007

Trecho…

In Hemingway on Setembro 5, 2007 at 8:40 am

hemingway

Hemingway. Tô lendo.

Sempre gostei dos contos de Hemingway, mas agora lendo um livro, eu começo a achar que ele gostaria de poder não descrever as coisas, e o faz meio que por obrigação. Ou então era o seu estado sempre meio depressivo que o fazia ver as coisas assim “como são”.
De qualquer maneira, o melhor de Hemingway sempre foi o diálogo. Por isso transcrevo aqui um trecho, bastante cômico:

“Quando voltei à hospedaria, a proprietária estava na cozinha; pedi-lhe que preparasse o nosso café e disse-lhe que queríamos levar o almoço. Bill já acordara e sentara-se à beira da cama.
- Vi-o sair, da janela – disse – Mas não quis interromper. Que foi você fazer? Enterrar o seu dinheiro?
- Preguiçoso!
- Você esteve trabalhando pelo bem comun? Ótimo. Quero que faça isso todas as manhãs.
- Vamos – disse eu. – Levante-se.
- Como? Levantar-me? Eu nunca me levanto.
Tornou a deitar-se, puxando o lençol até o queixo.
- Agora veja se é capaz de fazer com que eu me levante.
Continuei a procurar os nossos apetrechos de pesca para colocá-los na mala.
- Não está interessado? – perguntou Bill.
- Vou descer e comer.
- Comer? Por que não disse logo isso? Pensei que quisesse ver-me de pé somente por brincadeira. Comer! Ótimo. Você desce primeiro, desenterra mais algumas minhocas e eu desço num minuto.
- Ora, vá para o inferno.
- Trabalhe para o bem comum – Bill começou a vestir-se. – Dê provas de ironia e piedade.
Fiz-lhe uma careta.
- Isso não é ironia.
Descendo, ouvi Bill cantar… “Ironia e Piedade. Quando se sente… Oh! Demos-lhe Ironia e Piedade. Quando eles sentem… Basta um pouco de Ironia. Basta um pouco de Piedade…”
Cantou até o momento em que desceu. A canção era: The Bells Are Ringing for Me and My Gal. Eu lia um jornal espanhol, de oito dias atrás.
- Que história de ironia e piedade é essa?
- Como? Você não conhece Ironia e Piedade?
- Não. Quem lançou isso?
- Todo mundo em Nova York, todos estão loucos. Como os Fratellini de outrora.
A criada entrou com o café e torradas com manteiga. Era, mais exatamente, pão torrado com manteiga.
- Pergunte-lhe se não há alguma espécie de geléia. Seja irônico com ela.
- Tem alguma geléia?
- Isso não é irônico. Eu queria saber espanhol.
O café era bom e bebemos em grandes tigelas. A criada trouxe geléia de framboesa num prato de vidro.
- Obrigado.
- Eh, não é assim – disse Bill. – Diga uma zombaria qualquer sobre Primo de Rivera.
- Podia perguntar-lhe que tipo de geléia eles pensam ter introduzido na Riff.
- É fraco, muito fraco. Você não sabe – disse Bill. – Você não compreende ironia. Não tem piedade. Diga algo lastimável.
- Robert Cohn.
- Isso já é melhor, muito melhor. Mas por que Robert Cohn é lastimável? Seja irônico.
Bebeu um grande gole de café.
- Que diabo! – exclamei. – É ainda muito cedo.
- É isso. E você pretende ser um escritor. Mas é apenas um jornalista, um jornalista expatriado. Devia ser irônico desde o momento em que se levanta. Devia levantar-se com a boca cheia de piedade.”

Chega. Vá ler o livro ;*